Reunião aberta do Grupo Ensaios-Parapsíquicos
Simpatia
“As marés eram bastante conhecidas dos gregos e várias explicações já haviam sido sugeridas. Trataremos apenas dos desenvolvimentos feitos pela escola estóica. Um dos membros eminentes desta escola (Stoa - cidade grega) foi Poseidonius que, à maneira de um cientista moderno, se deslocou para a cidade de Gades e, durante um certo tempo, observou detidamente o movimento das marés. Com estas observações, ele mostrou com clareza a relação entre o período das marés e o período do movimento dos corpos celestes.
Constatada esta relação entre céus e terra, o universo se tornava unido novamente. Para os estóicos, o universo estava unido por um sistema de forças. Estas forças não eram propriedades de um corpo e ao atuarem não exigiam que houvesse contato entre corpos. Elas eram manifestações de uma ação à distância recíproca entre corpos, uma Simpatia. Segundo Alexandre de Aphrodisias (outro membro desta escola), a Simpatia agia por meio do pneuma, que era um fluído etéreo que ocupava todo o universo e no qual os corpos estavam imersos.
O conceito de Simpatia foi criado a partir da noção de Simphatos na medicina, de onde se sabia que a doença num órgão do corpo poderia afetar um outro órgão distante.
Esta idéia esteve presente explícita ou implicitamente na astrologia e em toda a literatura mística, religiosa, científica e filosófica do período romano.
Bem, mas o que isto traz de novo para o conceito de força? Simpatia, além de reunificar o cosmos fragmentado de Aristóteles, concebe a ação à distância e com isso introduz a busca por um conceito mais universal de força. Porém, os caminhos do conhecimento são tão confusos quanto os sociais e, ao invés de engendrar um conhecimento mais científico, o conceito de Simpatia serviu de justificativa para a astrologia e para interpretações teológicas do mundo.
A escola estóica foi atacada pelos que a sucederam, porque o seu conceito de simpatia e de pneuma buscava dar uma materialidade para a interação entre os céus e a terra. Na Alexandria formou-se uma escola de fundo religioso judaico que criticou duramente a concepção estóica e que influenciou profundamente o pensamento da igreja medieval.”
O trecho acima foi retirado do trabalho “O conceito de força na Idade Média” de F. F. de Souza Cruz do Departamento de Física da UFSC. Ele introduz o conceito de simpatia e traz as idéias que o cercavam naquela época. É interessante notar a questão do pneuma, algo que parece ter adquirido diferentes nomes em diferentes períodos da nossa história. Feita essa introdução histórica, vamos abordar as idéias que atualmente norteiam o conceito de simpatia e a visão que se tem do processo de realização de uma simpatia segundo alguns paradigmas.
Na sua concepção mais mundana, a simpatia é hoje o processo pelo qual logramos um resultado almejado seguindo um certa prescrição de eventos. Para exemplificar, vamos explorar o seguinte caso hipotético: uma pessoa almeja uma vaga para um emprego. Para isso ela escreve o nome da empresa num papel branco, coloca o papel sobre um pires branco e derrama mel e 7 cravos sobre esse papel . Assim que essa pessoa conquistar a vaga ela deve acender uma vela amarela e agradecer pelo desejo alcançado. Isso seria o que hoje entende-se simploriamente por simpatia, e envolveu dois eventos, a execução primária (papel no pires com mel) e o agradecimento (o ato de acender a vela). Mas esse mesmo protocolo, quando efetuado com mais complexidade e maior quantidade de eventos envolvidos, pode vir a ser chamado de ritual.
Mas além da simples sequência de eventos, o que é e como se processa o ato da simpatia de um ponto de vista mais profundo ? Essa é a pergunta base do estudo realizado sobre esse tema.
Constatamos que, desde uma simpatia até um ritual religioso, há alguns fatores importantes que fazem parte do processo para que se logre êxito. A primeira constatação é a de que toda simpatia tem uma ritualística própria, ou seja, segue um protocolo, um procedimento que deve ser obedecido. Com isso, tem-se o primeiro fator integrante na realização eficaz das simpatias.
“O homem é essencialmente um construtor de imagens. Ele não efetua nem mesmo uma simples operação sem formar com esse resultado uma espécie de idéia correlativa”.
“Um ritual é – isto não pode ser esquecido- uma ação retomada, redirigida (comemorativa), antecipatória e mágica. Há sempre no ritual um lado certamente tenso, de rememorar ou de antecipar, e esta tensão enfatiza a emotividade [levando] para a representação”, Jane Harrisons´s Themis.
O segundo fator a integrar o processo são os símbolos e suas simbologias. Muitos simpatizadores , magos, bruxos, feiticeiros, enfim, afeitos a esse tipo de canalização de energia intencionada, para provocarem uma mudança fazem uso de símbolos (fitas, pássaros, cães, cabelo, plantas, pedras, cristais, objetos pessoais, estátuas, imagens, cores, vestimentas, gestos, sons, entre outros) e das suas correspondentes simbologias segundo seu próprio cabedal de conhecimento dessas artes.
O terceiro fator é o momento astrológico da pessoa que será simpatizada . A astrologia determina que há certos períodos astrológicos cujo trânsito planetário é mais ou menos favorável para a realização de determinadas ações, seja um ritual, uma cirurgia, um empreendimento. Portanto, deve haver momentos mais determinantes para a eficácia de uma simpatia.
Um outro fator integrante nessa arte são as conexões que vão sendo realizadas dentro do procedimento para a sua realização. Muito provavelmente quando essa conexão evoca entes, símbolos e simbologias de uma época muito remota, e que goza de grande prestígio no conhecimento dos integrantes do processo, ela terá sua eficácia potencializada.
Mais um fator determinante, possivelmente o mais creditado de aceitação da sua influência, é a questão da intencionalidade (alguns preferem dizer fé, vontade, crença). Tão mais importante é este fator que há casos em que uma erva destinada a um fim específico pode ser usada para outro fim e “funcionar”, bastando a crença da pessoa simpatizada ser forte o suficiente para o seu sucesso.
Outra alegação a esse favor é que para uma pessoa “mais evoluída” (que possui domínio do parapsiquismo, ou é um mestre na arte de manipular as bioenergias) não há necessidade de rituais com símbolos, imagens, escolha do melhor momento astrológico, ou qualquer uma das assim denominadas na conscienciologia de “bengalas psicológicas”, para a sua efetiva realização.
Uma dentre várias conclusões a que poderíamos chegar é a de que todos os fatores supracitados parecem contribuir para uma espécie de formação de um campo de desejo, de fé, de necessidade, de energia. Este campo energético, se forte o suficiente, propicia o acontecimento desejado na simpatia. Assim, em síntese, a simpatia funciona com um mecanismo de ação que é constituído pelo fator energético.
Após essa exposição do entendimento a que chegamos estudando o tema da simpatia, deixamos ao leitor alguns questionamentos: poderíamos classificar os rituais religiosos como uma classe de simpatias? Os feitiços, os despachos, as famosas pragas no sentido de maldições. As bênçãos? Desejar o bem para alguém estaria também na mesma classe dos acima relacionados? E os processos de curas espirituais? E a inveja? As promessas? A vingança? Desejar fazer amor com alguém? O passe espiritual? Aplicação de Reiki? Existe alguma diferença entre eles ou poderíamos dizer que todos pertencem ao mesmo grupo de manipulações energéticas? Estar sempre imaginando que é a pessoa mais feliz e importante ou pensar que é a pessoa mais sofrida do mundo?
[1] Esse é apenas um exemplo hipotético; essa simpatia não existe.
[2] Simpatizadores – aqueles que realizam simpatias.
[3] Simpatizada – aquela que receberá a simpatia.
Sobre os autores:
Álvaro Luis Tronconi é doutor em Física pela
University of Oxford (1989). Atualmente é professor pesquisador da Universidade
de Brasília, especialista nas técnicas de Fotoacustica e Ressonância
Paramagnética Eletrônica, com ênfase em Nanociência e Nanotecnologia.
Atualmente ocupa o cargo de coordenador do NEFP.
email: tronconi@unb.br
Walkiria Eyre de Oliveira é estudante de Engenharia
Elétrica na Universidade de Brasília.
email: wkeyre@gmail.com
Gostaríamos muito de saber o que você, leitor desse artigo, pensa a respeito dessas questões deixadas em aberto. E se você tiver críticas ou sugestões a fazer, entre em contato conosco. Envie seu comentário, crítica ou sugestão para o email nefpunb@gmail.com.